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10/10/2011 / chapelleiro

Filosofias de Banheiro (2)

“Nada mais para verter em dor.”

Pensei enquanto girava a torneira do chuveiro. Embora essa estivesse fria, não se equiparou a meus dedos que queimavam em vapor e suspiros. Senti que algo ali, naquele momento, deixava tudo em uma paz enlouquecedora.

Alguns fios descolavam de minha cabeça ao ralo, contornando meu sorriso enigmático. Mas espere, aquele não era o meu sorriso, pelo menos eu não estava a sorrir como minha imagem no box do banheiro. Dela pude ver seus longos cabelos brotarem em minha imagem, seu riso, minha desgraça. A tormenta da minha mente, o horla da minha alma, sim, Berserker era seu nome e dor era sua canção.

Nada mais para verter em dor?” Sorriu ele. Do box, minha imagem agora me puxara, para um mundo antigo, onde faço casa às lamentações.

Tudo escuro. Até que estes olhos, agora acostumados, conseguissem dissociar dali uma silhueta. Era familiar aquela cama, aquele quarto, aquele cheiro, aquelas lágrimas…
Me vejo aos 10 anos, deitado de costas, como quem desejasse naquela escuridão sumir.

Por que chora?” Sua voz ecoa pelo quarto, minha tormenta.

Tento me aproximar, desejando que aquilo termine, que aquela tormenta suma. Peguei-o pelo ombro, mas o susto veio tão rápido quanto à queda ao chão. Nada!! Nada vi ali, em sua face, não tinha boca, nariz, tão pouco os tristes olhos… Mas seu choro, este sim era presente, e estava me deixando louco.

-Louco…- pensei –  Era isso que ele queria, mas se ele está aqui em mim, talvez eu desejasse isso. Não! Cale a sua maldita boca! Pare de chorar!!!

Aquilo tudo foi me deixando tonto, a ponto de requisitar mais um encontro com o chão…
Onde ele foi? Eu ainda continuo a cair.
Cada vez mais fundo…

Caindo…

Cain..

Sinto a grama em minhas costas, rasteira, estava em meus cabelos. Ali, voltando a olhar para frente, vi um céu familiar, com nuvens já decifradas. Virei para o outro lado e a vi. Uma das coisas mais especiais em minha vida estava ali, deitada ao meu lado, escondendo seus risos em seus cabelos castanhos. Mas… Quem era ela? Como assim, não consigo lembrar seu rosto?

Tentei tira-los para ver quem se escondia, mas cada vez mais este rosto se perdia. Desesperado, quase me levanto, mas era como se ali eu estivesse acorrentado, por duas asas de chumbo que não mais rogavam o céu.

– Não diga que “nada mais pode ser vertido em dor”, uma vez que deu voz e forma a ela. Aos poucos, vou depenando cada lembrança, desta asa que, em juras de ódio, chamara de “fardo”. Deixe estar.

E logo voltei para si, para o banheiro, quando a espuma caíra em meus olhos.

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